A Arteterapia no Tratamento da Adicção

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Paulo Antunes ( Arteterapeuta especializado e pós-graduado em dependência química.)

download (1)Uma tarefa que poderia ser complicada torna-se simples, a partir da inserção da metodologia arteterapêutica no quadro de ocupações oficializadas no Brasil (CBO – cód. 2263-10): apresentar a ARTETERAPIA como método suficiente e único para o tratamento de transtornos e comorbidades. Especialmente quando aplicada ao tratamento de transtornos mentais relacionados a substâncias (drogadicção) e as comorbidades que possam vir juntas a estes transtornos.

A ideia “suficiente” não exclui a parceria com outros profissionais. O que mais vale ressaltar aqui é a capacidade que a arteterapia tem de alcançar e ocupar espaços na recuperação e na vida do drogadicto que dificilmente encontraremos em outra dinâmica terapêutica. Porque o fazer arteterapêutico não se limita a abordagem psicológica nem somente a uma ocupação que dê conta do cognitivo e ocupacional do paciente. A arteterapia transforma o sujeito a partir do momento que o arteterapeuta o escuta, devolve, acolhe, reconhece, confronta e acata suas demandas. E, em seguida, na medida e ocasião certas, propõe produções, criações, escolhas, desafios e crescimento pessoal.

“O fazer arte é terapêutico, porque proporciona integração de uma personalidade, mediante a aplicação de técnicas e práticas expressivas, que tanto facilitam a materialização de formas, doadas por conteúdos projetados, bem como permitem a identificação funcional das mesmas, já que possibilitam a sua integração.” (“A transformação pessoal pelas imagens”, URRUTIGARAY, 2003, p.50)

Não se trata nunca de valores estéticos ou beleza poética na análise de trabalhos produzidos por pacientes de qualquer natureza. Não há avaliação alguma de grau de habilidade ou talento artístico potencializado. O que entra em questão é o fazer espontâneo e a entrega livre para cada produção, sob qualquer manifestação artística, envolvendo e convidando as sete artes conhecidas. E para tal, nem o paciente nem o terapeuta precisa ser artista. Tendo como condição sine qua non nesta relação terapêutica a formação do profissional na matéria da ARTETERAPIA. O que exige deste (arteterapeuta) conhecimento dirigido às artes, às técnicas artísticas, materiais para produções artísticas e, necessariamente, domínio das teorias de psicologia analítica de Carl Jung, seus estudos, pesquisas e trabalhos reconhecidos e aplicados por grandes autores, como Nise da Silveira, Luigi Zoja, Ângela Philippini, dentre outros.

“A possibilidade da vivência de experiências sensoriais, dadas pela percepção de formas, texturas, cores, volumes gerados pela materialização ou à concretização de si mesmo, torna possível a ação de plasmar a si mesmo… dada à atenção focada na sua própria ação.” (“A transformação pessoal pelas imagens”, URRUTIGARAY, 2003, p.52)

O paciente passa pelo crivo dos critérios diagnósticos previstos no CID 10 e/ou DSM-IV e, naturalmente, ambos, paciente e arteterapeuta, passam pelo estágio de vínculo paciente/terapeuta, como de praxe. Conforme o avanço das sessões, nos tempos e condições respeitados, as propostas de produção de imagens acontecem gradativamente e em sequências. Começam a surgir imagens do consciente e do inconsciente, de locais de difícil acesso da psique, com significados arquetípicos e mitológicos, como também podem aparecer figuras e formas da imaginação ativa, inspiradas por tendências artísticas e culturais, influenciada pelo mundo contemporâneo ou por um conhecimento qualquer do intelecto daquele cliente.
“Acentuemos que a imagem interna não é um simples conglomerado de conteúdos do inconsciente. Constitui uma unidade e contém um sentido particular: expressão da situação do consciente e do inconsciente, constelados por experiências vividas pelo indivíduo” (“O Mundo das Imagens”, SILVEIRA, 2001, p.82). E mesmo assim precisa ser amplificada, desdobrada, revisitada, refeita utilizando-se variados materiais e técnicas artísticas. Muitas vezes, desconstruída, reconstruída e, na grande maioria (evidentemente há casos excepcionais), somente após uma sequência de produção de imagens pode-se avaliar a situação ou a fase ou a experiência que se encontrou (ou encontra) o cliente. Alguns profissionais podem cair na esparrela de tirarem conclusões a cerca do paciente com base apenas em uma ou duas produções, o que pode prejudicar o tratamento.

A percepção do terapeuta tem que estar focada no que se apresenta plasmado nas imagens produzidas pelo paciente, em consonância com as suas palavras, colocando também foco nas expressões do seu corpo, gestual e postura, que o acompanham. Toda manifestação do ser, até mesmo seus sonhos, podem servir de objeto de apreciação e investigação. “A palavra fracassa. Mas a necessidade de expressão, necessidade imperiosa inerente à psique, leva o indivíduo a configurar suas visões, o drama de que se tornou personagem, seja em formas toscas ou belas, não importa” (“O Mundo das Imagens”, SILVEIRA, 2003, p.83). O que importa é a ação do que quer e precisa ser comunicado consciente ou inconscientemente. E esta ação é o fazer artístico, que não precisa ser classificado como arte. Mas sempre incentivado e acatado, podendo ser pintura, modelagem, dança, poema, foto, cena e/ou música, para posterior análise e cuidado permanente.

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